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# Hammer
- URL: https://pablomurad.com/hammer/
- Published: 2026-09-10T21:31:35.000Z
- Updated: 2026-09-10T21:31:35.000Z
- Description: Hammer é um cantinho da internet antiga que ainda respira: um BBS moderno acessado por SSH, cheio de ferramentas úteis no terminal, feito em Go, código aberto e construído por pura diversão, nostalgia e amor pela velha net.
- Author: Pablo Murad
- Tags: autorais, projetos, hammer

Tem uma época da internet que eu simplesmente não esqueço: a dos **BBS**. Você discava, o modem cantava aquela música estranha, e do outro lado abria um mundo inteiro feito de texto — menus desenhados em ASCII, cores piscando no terminal, um canto pra conversar, pra baixar alguma coisa, pra jogar. Era pequeno, artesanal, e tinha alma. Cada sistema era a cara de quem o mantinha.

O Hammer nasceu dessa saudade. Não veio de uma necessidade de mercado, nem de métrica nenhuma, nem de um plano grandioso. Veio do **gosto pela net antiga** e da vontade boba e teimosa de ver de novo aquela tela de terminal se abrindo quando a gente se conecta. Foi diversão, no sentido mais honesto da palavra — o tipo de projeto que você faz no fim de semana porque te dá prazer, não porque alguém pediu.

*“E se, em vez de mais um site, o ponto de entrada fosse o próprio SSH?”*

Essa foi a pergunta que puxou o resto. Você abre o terminal, digita um comando, e cai num menu — como nos velhos tempos, só que rodando sobre a infraestrutura de hoje, com criptografia de verdade e sem discar. A nostalgia por fora; engenharia atual por dentro.

**O que é o Hammer**

No fundo, o Hammer é uma **caixa de ferramentas que você acessa por SSH**. Você se conecta e encontra um menu interativo, com cores e caixas desenhadas, exatamente no espírito de um BBS. A primeira ferramenta a nascer foi a de **clima** — pergunta a previsão de qualquer cidade e ela responde ali, no terminal, em texto bonito. Mas a graça é que o clima é só a primeira gaveta de um armário que vai crescendo.

Ao lado dele foram entrando pequenos utilitários do dia a dia de quem mexe com rede e texto:

● net — checagens de DNS, TLS, HTTP e informações de domínio;

● qr — gera QR Code em ASCII, para URL, telefone ou texto;

● hash — resumo, tipo e entropia de qualquer conteúdo colado;

● jq — transforma e filtra JSON e YAML;

● age — cifra e decifra mensagens;

● e outros que aparecem no menu só quando o servidor tem o que precisam — como checagem de links, consultas a bases e diagnóstico de rota.

Cada uma delas segue a mesma filosofia: um vocabulário fechado, com entradas validadas. Nada de abrir um shell solto para o mundo — é um menu com portas certas, não uma porta dos fundos.

**Como foi construído**

O Hammer é escrito em **Go**, e a decisão que define quase todo o resto foi esta: ele é um **único binário estático**. Fontes, traduções, modelos de página e o que mais o programa precisa ficam embutidos dentro do próprio executável (o recurso de embed da linguagem). O resultado é que não há dependências soltas para instalar, nem servidor extra na frente: um arquivo só, que você copia e roda.

![](https://pablomurad.com/content/images/2026/09/hammer2-1.png)

A porta de entrada nostálgica — o BBS — é um **servidor SSH próprio**. Quando você conecta, ele desenha o menu, lê tecla por tecla, cuida de acentos e emojis na largura certa do terminal, e mantém um perfil só seu: cidade padrão, cidades salvas, unidades, idioma e tema. Esse perfil fica guardado num banco leve, para voltar igual na próxima visita.

O serviço de clima tem uma herança que eu faço questão de creditar: ele começou como uma releitura, em Go, do *wttr.in* — aquele projeto que mostra o tempo no terminal via curl. Boa parte dos formatos de saída, do vocabulário de opções e das dezenas de traduções descende desse trabalho, e o original segue sendo a referência. Em cima dessa base eu fui costurando o resto: o menu, as ferramentas, a identidade visual.

Para colocar de pé sem dor, o Hammer roda em **contêiner**. O serviço web de clima fica atrás de um proxy reverso, com HTTPS resolvido na entrada; o BBS, por ser SSH puro, atende direto na sua própria porta. Duas caras do mesmo programa, no mesmo processo.

**Entrar sem burocracia**

Um detalhe que me importava: eu queria que entrar fosse **fácil como era antigamente**. Nada de criar conta, inventar senha, confirmar e-mail. Então o Hammer aceita **acesso anônimo** — você digita o comando com o usuário guest e já está dentro, sem precisar de nada. Quem prefere, pode se identificar pela própria chave; quem não quer, entra assim mesmo.

E, fiel ao espírito da coisa, as preferências continuam salvas mesmo para quem entra anônimo: escolha uma cidade, ajuste o tema, volte depois — e ele lembra. Para não virar bagunça, há limites gentis: um teto de conexões ao mesmo tempo e um espaço de trabalho que se limpa sozinho de tempos em tempos. Suficiente para brincar à vontade, sem deixar a porta aberta para abuso.

**Então...**

No fim, o Hammer é exatamente o que eu queria que fosse: um **cantinho da internet antiga que ainda respira**. Um lugar onde você abre o terminal, ouve — na imaginação — o modem cantar, e encontra um menu em texto esperando por você. Feito com ferramentas de hoje, mas com o coração lá atrás.

Não é um produto. É um *hobby que virou software*, de código aberto, que continua crescendo uma gaveta de cada vez. E, honestamente, essa é a melhor parte: não ter que ser mais do que isso.