Memórias Binárias – Parte II
Delphi foi uma alegria incrível naqueles meus primeiros anos como programador, e eu amava o pouco que sabia. Era o suficiente para ganhar elogios de adultos que nitidamente não entendiam nada do que eu estava fazendo, e menos ainda do que estavam vendo.
Mas funcionava.
Eu tinha um amigo de infância chamado Daniel. Bem, ainda somos amigos, mas mais distantes, devido a termos crescido e vivermos basicamente cada um em um extremo do país. Gosto de pensar que nos vemos a cada pandemia. E é legal, pois parece que nos vimos ontem pela última vez.
Daniel seguiu seu rumo como economista. E eu segui meu rumo, extremamente obscuro até então. Mas, na época, adorávamos revistas de hacker que vendiam no Brasil. Ao mesmo tempo, eu já vivia em redes de IRC, operando firmemente como ‘op’ em canais e até como NetAdmin em umas redes malucas e como IRCop em outras.
Em paralelo, meu amigo Daniel e eu comprávamos revistas em bancas, pois a internet da USRobotics já não era mais suficiente, e essas revistas vinham com diversos softwares. Uma grande memória da Revista Hacker.

E não só ela: havia Top Hacker, H4ck3r (da Digerati), Digerati Hacker, Universidade Hacker e também uma das minhas favoritas, que era a Geek.
E foi através da Revista Hacker que li a palavra: Sub7. Poucos devem se lembrar desse RAT, que era o terror do IRC e do ICQ. Um trojanzinho de ‘brincadeira’ que tornava incrível invadir pessoas; depois de ter em mãos, o negócio era ir atrás do famoso ‘Joiner’, que muitas vezes era nada mais que um script para fundir dois arquivos.
Ou seja, você pegava o .exe e colocava em .jpg, mas isso era uma enganação. Só trocava o ícone. Mas já nos dávamos como satisfeitos.

A infame revista Geek de que tanto falei, onde tinha meus softwares favoritos...
Daniel e eu éramos os reis dos RATs, adorávamos ‘trollar’ as pessoas, as mais diversas, e os RATs, como Sub7, Back Orifice e Netbus, são um pouco antecessores de outra ferramenta que usei muito nos anos 2000: os keyloggers.
Falarei mais dos keyloggers talvez em outro capítulo.
Então em 1999, eu conheci o Leo Louco.
Um gênio que veio parar na minha cidade depois de algum acidente maluco, que contava histórias de ter arrumado notebook na floresta embaixo de chuva torrencial. O Leo é uma criatura extraordinária, mente incrível, extremamente acelerada, e foi, por um ou dois meses, meu professor. Não mais que isso, porque ninguém aguentava passar mais tempo com ele. Mas sim, ele é uma boa pessoa.
Usando seus óculos e ensinando ao Daniel e a mim, desde 1999, os princípios e valores do Software Livre, coisa que devo confessar que desprezei até 2016. Mas também falarei disso em outra oportunidade.

Leo era tão bizarro. Mas tão bizarro que, em nossas primeiras aulas, ele me colocou na cadeira do seu laboratório e disse as palavras que, na época, soaram como mágica. Ele disse: você irá aprender SLACKWARE.
Imagine alguém dizendo isso devagar e de forma confiante. Eu fiquei apavorado; não sabia o que era, apenas que era Linux, mas não tinha noção do quão difícil era.
E a primeira lição foi construir um drive para modem... e para Slackware.
Continua...